Rio de Janeiro
Copacabana, cinco da tarde, um céu violeta de dissolver pedra nos rins. Sentei-me na ponta de um banco, uma mulher na outra. Bem vestida, uns 40 anos. Soltou um gemido de cansaço. Eu concordei em silêncio, cansa mesmo. Ela foi se ajeitando e quase deitou a cabeça no meu colo. Dormiu. Na areia, duas putas combinavam alguma coisa com o professor de futebol. Saíram rebolando com o short de lycra, estampa de calçadão.
Crib Tanaka, André Mansur e eu fomos pra Santa Teresa, pizza de parma, alcaparras. Falamos de panelas industriais e domésticas, Crib passou mal, deu asma. Panela só as de barro, honestas.
Conheci Mariana Newlands, moça tão delicada quanto as imagens que faz. Áries, ascendente virgem. Pra quem é fogo, ter terra, há de ser bom. Não tenho planeta em terra, nenhum, por isso não posso com avião, meu fogo fica azul.
Niterói, MAC, capricho de Oscar Niemeyer. Uma flor saindo do nada, como ele descreve na entrada. O museu é uma sala oval de janelas inclinadas, nos deitando sobre o mar, vista para a silhueta do Rio de Janeiro.
Lívia Garcia-Roza e Ivana Arruda Leite nos esperavam atrás do Copacabana Palace, chegamos na cantina atrasadas. Ivana me reprovou com o olhar, ela pode. Lívia nos recebeu com um abraço. Ela falou de psicanálise e literatura, flutuamos todas nas experiências dela.
Lívia seguiu seu curso e fomos para Ipanema: Ivana, Crib, Mariana e eu. Algumas luzes vieram naquela mesa sobre romances, os literários.
Hora de ir pra Bienal, chuva e frio paulistano. Uma fila de meninas e mães de meninas. A Editora Record convidou o ator Erik Marmo pra ler um conto. Como encher um auditório de 600 lugares, no fim da feira, com escritoras desconhecidas? Erik Marmo fez lotar os lugares. Ruffato apresentou a antologia e cada uma leu 10 linhas de seu próprio conto no púlpito, microfone. Erik chegou com o conto escolhido por ele: Avon, o conto que escrevi inspirada na soberania da beleza.
Bastaria uma pequena má interpretação para que eu ofendesse 600 meninas com o Avon. E mesmo que ofendesse, Erik agradaria. De novo a beleza no domínio. Ironia desdobrada o galã ler em primeira pessoa um personagem que abomina a feiúra, justo ele, que deve defender a "beleza interior". Pra minha surpresa a platéia riu, riu de si mesma.
Voltei pimpona, lembrando palavras da Lívia Garcia-Roza que diz pra gente se mexer junto com o problema exterior. Ser maleável. Quando o avião balançou me fiz de pássaro, imaginando que era o vento batendo na barriga na tentativa de me desviar da nuvem.
O colchão de nuvens, onde o branco fica cinza nas dobras. André, o meu, me recebeu com um abraço bem quentinho, devolvi com maresia.

foto: Mariana Newlands
p.s. Leia mais sobre a Bienal e o Rio de Janeiro com a
Ivana Arruda Leite.
escrito por andrea del fuego
at 17:53 BRST
Updated: 24/05/05 18:00 BRST