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conto














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A domicílio




























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foto: Brassaï






1º de outubro

E tem mulher que fica melhor depois que lê Clarice Lispector, olhe pra mim! Acha que confiaria no que uma mulher diz? Aquela soberba de mulher solitária que se diz conhecer o universo porque se acha reflexo dele? Me economize! Mulher de diplomata mal comida, imagine um diplomata na cama.



2 de outubro

Se encontrar este diário fica a teu cargo mostrar ao meu pai estas palavras, se for tarde demais, deixe-as por favor em seu túmulo, como epitáfio. Se me permite sugerir, recorte com tesoura o trecho abaixo, assim ele verá com minha letra, mas só este trecho, obrigada.

São muitos os olhos que espiam, os que com eles selecionam presas e afagam à distância o encarcerado. São muitas as bocas que salivam, pelo desejo da carne e expulsão do veneno. São muitas as mãos que seguram o falo e estrangulam galinhas. São muitos os nãos, por coragem de tê-lo dito e atrofia da doação.



3 de outubro

Recebi um cartão postal da Fabiana, está na Espanha, mandou uma fotografia, fachada da Casa Milá. O que a Fabiana quer me mandando isso? Sabe que odeio essa arquitetura, essa coisa com movimento, meio arredondado, meio ondas de cimento nas sacadas, odeio mar, mulher chata, essa Fabiana! Me conheceu numa palestra e quer ser íntima, me agradar, não quero. Esse postal vai pro lixo.



5 de outubro

Não gozei na vida com menos sentimento que aflição. Vem aquela corrente esquisita, não vejo a hora que termine aquilo. Deus me livre algum homem que me queira "fazer mulher", aquela coisa melada, aquele cara colado. Mil vezes o homem egoísta que pouco se importa em quem penetra. Esse cara nunca vai te cobrar nada. Não estou aqui pra amar.



6 de outubro

Peguei dois pacotinhos de suco artificial, misturei ao leite vencido e fiz uma pastinha. As paredes estão borradas de pó sabor uva. Pintei com os dedos uns círculos, não, quase-círculos, quando ia terminar as esferas, botei uns traços cortantes, umas barras. Bonito. No fim deixei uma porção de quadrados, uma forma se sobrepôs à outra. O cheiro começa a incomodar, o leite estava morto. A uva do suco foi viva sabe Deus quando.



7 de outubro

A sala está azeda. Não sinto enjôo, embora esteja numa embarcação. O apartamento dá umas balançadas. Não dá pra ir até o quarto, decerto lá estão a bússola, o mapa e um antigo marinheiro leitor de estrelas. Fala-se de estrelas com ternura, chegue perto de uma e verá uma usina nuclear de força tal a não dar rotação livre aos planetas. Estrela é um buraco. Pra que preservar tubarões? Só um design a menos. Reumáticos que arrumem outra cartilagem, outro hospedeiro.



8 de outubro

Pouco importa onde você projeta o amor que sente. Importa a projeção em si, ela é que te faz feliz. Você não precisa de uma tela pra projetar seu filme de amor. Qualquer muro serve. Projete sem pensar em que planície a imagem vai atingir. O que ama sempre cola. Por isso temos que nos libertar de quem se apaixona por nós. Essas bromélias rastejantes.



9 de outubro

Problema desse corredor é a dúvida que ele me deixa. Posso ir ao banheiro ou ao quarto. Um ou outro. Azulejos são frios, se me arrastar até lá, poderei me refrescar nas lajotas, fumar um cigarro que está num maço dentro do bolso de um jeans atrás da porta, os fósforos estarão juntos. Sempre gostei daquela fricção com cheiro de pólvora da madeirinha magrela. Até o quarto precisarei de mais músculos que me façam serpentear pelo chão.



10 de outubro

Estou debaixo da cama. Pra chegar até aqui minha perna teve que brigar com o carpete. Perdemos, eu e a perna. Descolaram os curativos, o local já estava verde, aquele estágio logo após o roxo das trombadas. A pele, tão fininha, se rasgou na quina da parede ao me virar do corredor pro quarto. Assim se envelhece, a pele vai se afinando, vai expondo a carne ao oxigênio. O fogo não se alimenta de oxigênio? O oxigênio se alimenta de carne.



11 de outubro

Alguém entrou no apartamento, até agora estou debaixo da cama. Não movi uma unha. Ouço passos, parecem de mulher, começa forte, termina leve. Não tocou a campainha, foi entrando. Telefone toca. Minha canela bate no estrado. Suo de dor. Quem entrou não diz nada, a ponta do lápis está frouxa, o telefone parou, será que a pessoa atendeu? Ouvi, ela disse "sim". É uma mulher, sabia.



Quarta-feira, 26 de dezembro de 2001

Laura, aqui é Fabiana, vi que jogou fora os postais que te mandei da Espanha, fiz questão de escrever em seu diário, herança que sua família deixou comigo.

Depois que a perícia fez o trabalho em cima desse teu caderninho, tua família não quis nem tocar nisso aqui. Eu me ofereci para guardar e sua mãe me entregou no dia da tua missa.

Não resisti, estou invadindo teu espaço covardemente. Escrever nele é como falar com você. Eu não ia deixar passar essa desfeita.

Por que jogar os postais no lixo, Laura?

Se escreveu até o fim, por que não revelou seu algoz? Bem-feito! Te encontraram imunda naquele quitinete.

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(conto do livro "Minto enquanto posso")




























andréa del fuego